La Roux, Bullet Proof
This time I’ll be bullet proof
Casa Vazia
Se em “Muito Além do Espetáculo”, Adauto Novaes conclui que a imagem contemporânea está adoecida (e, em cultura contemporânea, referir-se a imagem é referir-se a qualquer coisa, a tudo), Denílson Lopes e Adalberto Muller – autores, respectivamente, de “Retorno do Sublime” e “Elogio da Leveza” - apresentam em seus textos conceitos que podem ser considerados poderosos antídotos contra o estado de aflição em que vivemos. Lopes afirma que “o sublime é uma alternativa diante de um mundo povoado de imagens, clichês e informações. Sua ideia é a de que um novo sublime, o sublime tecnológico – que valoriza o banal, o simples, o corriqueiro e despercebido, as minúcias – trataria-se “da possibilidade de uma experiência de beleza que emerge de um cotidiano povoado de clichês”.
Já Adalberto Muller coloca de lado a preocupação em definir a leveza de que trata, associando-a ora a lentidão, ora a rapidez, sempre com o respaldo de pensadores como Ítalo Calvino e Milan Kundera. Na sua essência, essa leveza vem a ser mais um estado de espírito que qualquer proposta anti-massa (o que não deixa de torná-la uma reação). Diante de tais conceitos, parece que o cineasta Kim Ki-Duk apossou-se desses sentimentos – já que, como dito, fica a sensação de que são mais sentimentos que esquemas – e promoveu em Casa Vazia um espetáculo de leveza. Ela está presente na ausência de voz e nos movimentos delicados dos personagens, na economia de cores. É uma profusão de sensibilidades que provocam um efeito contemplativo diferente do aplicado ao sublime tradicional. No sublime de Casa Vazia não há espanto, não há terror.
Nem por isso, a obra de Ki-Duk deixa de ser reflexiva e até incômoda. Esse desconforto está presente na disparidade entre a personagem feminina do filme e seu marido, no silêncio desnorteante que embala as ações dos personagens, na quase ausência do clímax.
Por ser leve, Casa Vazia não se torna facilmente digerível. E é exatamente por esse motivo que ele se torna uma produção tão interessante. Menos nem sempre é menor e coisas pequenas nem sempre são desimportantes. É como se Casa Vazia fosse uma quimioterapia homeopática para o tratamento do câncer que tomou conta da imagem contemporânea. E como tal, a cura depende mais de fé e sentimento que de ciência.
Aqui
Eui ainda não sei o que dizer, ou o que esperar de mim. Só sinto que o futuro é incerto demais e que demais eu vivi até aqui. Eu tentei desintegrar, desaparecer, arrumar a bagunça de uma vida. Mas essa bagunça não fui eu quem comecei. Isso não me impede de tentar ordenar as coisas, mas me condena a jamais entender o que está acontecendo à minha volta.
Pelo tempo que durar
Nada vai permanecer no estado em que está
eu só penso em ver você
eu só quero te encontrar
Geleiras vão derreter, estrelas vão se apagar
e eu pensando em ter você pelo tempo que durar
Coisas a se transformar
para desaparecer
e eu pensando em ficar a vida a te transcorrer
e eu pensando em passar pela vida com você.
Adriana Calcanhotto, Marisa Monte, Pelo Tempo Que Durar.
Cavalos Selvagens
Homens, mulheres e crianças – todos com seus dias previstos e organizados.
As obedientes engrenagens da máquina funcionando com suas rodinhas ensinadas, azeitadas para o movimento que é uma fatalidade, taque-taque taque-taque… Apáticos e não apáticos, convulsos e apaziguados, atentos e delirantes em pleno funcionamento num ritmo implacável.
Às vezes, por motivos obscuros ou claros, uma rodinha da engrenagem salta fora e fica desvairada além do tempo, do espaço – onde? A máquina prossegue no seu funcionamento que é uma condenação, apenas aquela rodinha já não faz parte dessa ordem.
“É um desajustado”. Há que readaptá-lo depressa à engrenagem familiar e social, apertar esses parafusos docemente frouxos.
Pronto, passou a crise? Todos concordam, ele está ótimo ou quase. Mas às vezes o olhar tem aquela expressão que ninguém alcança e volta o fervor antigo, cólera e gozo nos descompromissamentos e rupturas – aguda a lembrança violenta do cheiro de mato que recusa o asfalto, o elevador, a disciplina, ah! Vontade de fugir sem olhar para trás, desatino e alegria de um cavalo selvagem.
Inexperiência ou cansaço? Cavalos e homens acabam por voltar à engrenagem. Muitos esquecem mas alguns ainda se lembram e o olhar toma aquela expressão que ninguém entende, ânsia de liberdade. De paixão.
Em fragmentos de tempo voltam a ser inabordáveis mas a máquina vigilante descobre os rebeldes e aciona o alarme, mais poderoso o apelo, taque-taque TAQUE-TAQUE! Inútil. Ei-los de novo desembestados: “Laçá-los é o mesmo que laçar um sonho”.
Lygia Fagundes Telles, A disciplina do amor. 2 ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980. p. 131-2 (com cortes).
Oriente
De onde o resgatariam? De si mesmo, de uma estrutura profunda que ele mesmo arquitetara, meio labirinto meio poço, estrutura da qual não conhecia o fim ou o começo? E como podia almejar que alguém o salvasse, e de que? Que alguém, por destino, trouxesse um raio de luz àquela profunda escuridão?
Ele percebia, a passos lentos – porque era uma caminhada –, que seu exército era de apenas um soldado. Um homem miúdo, pele e ossos, com olhos de abismo. Nenhuma esperança romântica seria capaz de resistir a uma fratura tão exposta.
Retrato
O tempo poderia passar muito depressa ou tornar-se uma preguiça de três dedos, a pergunta seria a mesma. A chuva, torrencial, unindo Deus e o diabo lá fora, poderia deixar de existir e deixá-lo ir, mas a pergunta, o questionamento torturador, onipresente, seria o mesmo: quem ele era?
O Corpo
por Felipe Lima
Fotografar
v.t. Obter uma imagem pela fotografia. / Fig. Conservar no espírito uma imagem precisa de alguma coisa.
Paolo Nutini, Pencil Full Of Lead
I’ve got a shelf full of books
And most of my teeth
Two pairs of socks
And a door with a lock
I’ve got food in my belly and a
License for my telly
And nothin’s gonna bring me down
Best of all
I’ve got my baby
She’s mighty fine and she’s all mine
And nothin’s gonna bring me down
Sete coisas que eu curto
A convite do Guto, do Quase Poema
1Cinema
Um filme nunca é só um filme. É entretenimento mas também pode – e deve – servir como intrumento de transformação. Há algo muito mágico e verdadeiramente transformador no cinema. Sou prova disso.
2Música
Eu certamente seria músico - se tivesse talento e não fosse tão tímido.
3Fotografia
É fazer o tempo parar e não se dar conta. Mágico.
4Comida
Felicidade é ter a geladeira cheia.
5Natureza
B, de The B Box, vem de Barefoot (descalço). Pés no chão, chuva, praia, grama, sombra, sol, bichos, planeta. Amo.
6Gente
Com todas as diferenças e semelhanças.
7Conexão
Com Deus, com o mundo, com a rede mundial de computadores. Gosto de saber que posso me ligar com o que está fisicamente distante.
Sade, By Your Side
If you want to cry
I am here to dry your eyes
And in no time you’ll be fine
O Tempo e O Resto

Eu queria falar acerca do tempo e das coisa trazidas e levadas. Mas não posso, pois do tempo não sei nada a não ser do peso de viver trezentos anos e não tê-los vivido. Eu gostaria de elucubrar a respeito das rugas e das emoções mais humanas e indissipáveis. Eu não consigo. E certamente desistiria não fosse um conselho vindo de quem não poderia aconselhar nada: ame.
Eu certamente quereria as profundezas da convivência e do espírito pois a superfície é demasiadamente decadente e pobre de tudo. Eu me cansaria da miséria da alma. Dos espíritos pequenos e das imobilidades das visões. E transporia o muro porque a caminhada é destino.
Eu desejaria viver muitos anos de paz, sem estar, como Clarice, ocupado em consertar os erros cometidos tentando, em vão, acertar. E foram tantos.
Eu não me preocuparia com redenções, ou esperaria compreensões, tampouco relevaria julgamentos. Nada.
Eu amaria, como me foi ensinado.
Enquanto não estou pronto faço chegar a ti esse pedaço. Cuide para que permaneça intacto. É que eu preciso caminhar. A caminhada é destino. Eu preciso do tempo e do resto que deixei. Dos erros. Eu os quero.
Morcheeba, World Looking In
Don’t stop just yet
We’ ve got the world looking in our window
Vende-se
A prostituição masculina em Brasília: como vivem e trabalham os garotos de programa da capital federal

Da chegada das caravelas portuguesas em território indígena brasileiro à hegemonia da rede mundial de computadores muito falou-se a respeito da prostituição no país – com ênfase, quase sempre, na condição da mulher perante a atividade de usar o corpo como ganha-pão. No entanto, embora haja poucos números precisos que possam servir como comprovação, não é difícil perceber o crescimento da presença masculina na seção de acompanhantes das páginas de classificados de boa parte dos jornais impressos no país atualmente ou mesmo na internet. Em Brasília, não seria diferente. São homens de classes e idades variadas com um interesse fundamental em comum: ganhar dinheiro rápido, às custas de pouco esforço.
Fotos e texto por Felipe Lima
Oliver, gato malhado, rec cheg 22ª
carinhoso mass atv/pass 9000****
Em outubro de 2006 a BBC Brasil noticiou o desmantelamento de uma quadrilha acusada de exploração de prostituição masculina heterossexual na província de Badajóz, próximo a fronteira com Portugal, na Espanha. Os depoimentos colhidos pela repórter Anelise Enfante, autora da matéria, já constatavam o aumento de casos de prostituição masculina na Europa e preocupavam as autoridades. Um detalhe: segundo dados apurados por Anelise, 90% desses homens eram estrangeiros e mais da metade, brasileiros. Jovens que buscavam independência financeira e foram seduzidos por propostas de uma vida melhor longe de casa.
Não foi com diferente objetivo – embora em diferentes condições – que Oliver*, 22, ingressou há cerca de três anos – incentivado por um amigo que ele descobriu ser garoto de programa quando ainda cursava o ensino médio – num mundo onde sexo e dinheiro são sinônimos. Sua única fonte de renda, o dinheiro ganho com os encontros já lhe proporcionou dois anos de estadia na Itália, de onde voltou há oito meses e para onde pretende retornar em breve, e a conquista de alguns dos bens que almejava quando ainda morava com a avó, longe do pai que sequer o registrou e da mãe que manteve-se ausente durante um longo período da vida do rapaz. A lista inclui ainda itens que o jovem espera alcançar antes de deixar a atividade, daqui a planejados dois anos. “Quero comprar um imóvel, um carro e voltar a estudar; fazer medicina”, revela.
Profissionais?
Oliver não se intimida em afirmar que viver como garoto de programa “é uma maneira fácil, entre aspas, de conseguir dinheiro rápido”. “Fácil?”, pergunto. “Eu gosto de sexo”, esclarece. “Gosta do que faz, então”, concluo. “Gosto do que ganho”, corrige, afiado.
O cuidado dos garotos de programa com o corpo e a estrutura de funcionamento do serviço prestado são preocupações legítimas para quem encara a atividade com indispensável profissionalismo. A atenção pode ir da arrumação do ambiente – com preparação de luz, roupas de cama limpas e acessórios como camisinha e lubrificante à disposição – à forma do tratamento dispensado ao cliente.
Tal preocupação, todavia, não é uma característica meramente organizacional. É, sobretudo, uma tentativa de não envolver-se emocionalmente com quem procura pelo serviço. “O garoto de programa precisa ser frio, não há espaço pra confundir as coisas”, responde Oliver, quando pergunto se já apaixonou-se por um cliente. Ao final, a impressão que se tem é que a prostituição, não apenas em Brasília mas nos grandes centros urbanos, é organizada de maneira muito mais profissional (e discreta) do que antigamente.
Homem x Homem, Homem x Mulher, Homem x Homem+Mulher: os clientes
Bissexual “desde sempre”, Oliver tem dificuldade em classificar o perfil dos clientes que o procuram. A variedade de perfis, entretanto, é um bom fator: quanto maiores as possibilidades, mais dinheiro em caixa. Por conta disso é raro encontrar garotos que atendam a somente homens ou somente mulheres.
As mulheres, no entanto, são minoria entre as pessoas que procuram garotos de programa. “Na maioria das vezes, quando elas vêm, estão acompanhadas do namorado ou marido. Vem o casal. É raro vir uma mulher sozinha”, afirma. A maior parte dos clientes são homens na faixa de 35 a 40 anos. Clientes bem mais novos ou bem mais velhos também costumam surgir. “Já atendi um senhor com oitenta anos”, conta.
Difícil para Oliver é saber ao certo quais razões motivam a procura por garotos de programa. “Os mais jovens vêm por curiosidade, mas existem os homossexuais que são casados com mulher e só transam com garotos de programa. Enfim, são muitos os motivos”, conclui.
Oliver divide com uma amiga a atividade e as despesas com o apartamento no primeiro andar de um prédio em área nobre da Asa Norte, em Brasília, onde atende 24 horas por dia os clientes que pagam de R$ 50 a R$ 100 reais para estarem em sua companhia. Mas o valor pode ser negociado. “O preço varia de acordo com o que o cliente quer. Tem cliente que só quer tocar, fazer carinho, conversar e fala: só tenho vinte reais”, diz, para completar em seguida: “Todo garoto de programa tem um pouco de psicólogo”.
*O nome foi alterado para preservar a identidade do entrevistado.
Antropologia, consciência, cinema
por Felipe Lima



Espiral do Silêncio (ou Poema banal para o amigo dinossauro)

A Teoria da Espiral do Silêncio diz
que o amor não deve ser calado,
que aquilo que parece pode não ser
e pensei em tudo isso enquanto adormecia.
Noite agitada. Noelle-Neumann, Leminsky ecoavam em minha cabeça, misturavam-se a sonhos indecifráveis.
Pela manhã, a impressão de que eu vivia o que Calvino descreveu em seu microconto:
“Cuando despertó, el dinosaurio todavia estaba allí”.
Ayo., Paléo Festival, Nyon
“Je ne comprends pas francais
So you’ll have to speak to me
Some other way”
Mera coincidência?

Robert De Niro, Anne Heche e Dustin Hoffman estão em Mera Coincidência, comédia corrosiva de Barry Levinson
Sob que verdades estamos submetidos? Quantas existem? Em qual devemos acreditar? Certamente David Mamet e Hilary Henkin tinham a intenção de divertir o público mas não privá-lo de uma boa dose de reflexão quando adaptaram para o cinema American Hero, livro de Larry Beinhart, e transformaram-no em Mera Coincidência (Wag The Dog, EUA, 1997).
Fazendo comédia o diretor Barry Levinson costura a história de um produtor de cinema de Hollywood convidado a criar (com direito a cenas de ação, mocinha e herói) uma guerra contra a Albânia, com o intuito de desviar a atenção da população de uma acusação de assédio sexual contra o Presidente dos Estados Unidos da América, prestes a garantir a reeleição. Para isso, a Casa Branca conta ainda com a ajuda fundamental e quase involuntária da mídia, que escolhe expôr a guerra e alavanca os índices de aprovação do presidente.
“No nosso ambiente intelectual, a verdade que importa é a verdade midiática”
O jornalista, escritor, pesquisador e um dos fundadores na década de 90 do Fórum Social Mundial, Ignacio Ramonet, julga na frase acima, de sua autoria, a realidade da comunicação contemporânea – a que Mera Coincidência tão bem reproduz, ainda que com toques surrealísticos. Em uma avaliação do panorama atual percebe-se que a hegemonia da informação é tamanha que ao receptor de uma mensagem cabe apenas o papel de quem a aceita sem poder ou mesmo (e pior) sem saber questioná-la, pensá-la, inconsciente do processo de escolha das informações que chegarão até ele. É como se a falta desse conhecimento o colocasse na posição do cachorro balançado pelo rabo. O povo é manobrado pelo poder político com a ajuda de uma mídia igualmente manipulada – mas também manipuladora.
A suposta credibilidade de nossas grandes instituições de comunicação alia-se a referida pouca capacidade do público em avaliar a informação que recebe e tornam-se fatores para a criação de uma verdade midiática tal a qual refere-se Ramonet. O leitor/espectador acredita naquilo que o chega pelos noticiários e o que lhe chega por vezes é fruto de informação divulgada para atender a interesses escusos – políticos, principalmente. Os meios de comunicação, de posse de informações que os chegam, acabam por escolher o que irão divulgar, determinando assim que assunto será discutido pela opinião pública. Que presidente queremos? O que abusa de garotinhas em visita à Casa Branca ou o que é capaz de resolver conflitos sérios e manter a postura inabalável do país?
A mídia, como poder, não pode se desvirtuar de seu papel principal. O de garantir ao cidadão informação sem prejuízo de integridade, permitindo assim que ele possa usufruir da democracia de forma plena e seja capaz de autogovernar-se. Os meios de comunicação não devem atrelar-se a jogos políticos, tampouco devem decidir pelo leitor/espectador o que deve ou não ser discutido pela sociedade com base em interesses alheios a ele. Somente dessa forma poderemos creditar à mídia status de defensora dos direitos do cidadão, posição com que ganhou importância e chegou a ser reconhecida como quarto poder.
Por Felipe Lima
Morcheeba, What’s Your Name
What’s your name?
Been watching everything you do
I can look but I can’t touch
There’s nothing wrong in wanting you
Desabafo (ou Como foi aquele sábado de churrasco?)
Eu relutei (Deus sabe como) diante da oportunidade de transformar este espaço, ainda que minimamente, em mero diário eletrônico exibicionista ou em uma estante virtual vigarista de auto-ajuda. Mas permitam, abrirei uma exceção e botarei pra fora que:
eu odeio, perdão, menos fúria. Tenho dificuldades graves em me relacionar bem com quem joga lixo no chão. É crônico. Porque pra mim o ser humano (se assim posso chamá-lo) que é capaz de abrir a janela de um ônibus e jogar um papel de bala que seja em pleno trânsito não merece viver. Me faz perder a fé na humanidade, me deixa escapar o otimismo. Juro. Da mesma forma que:
se você prometeu faça o possível para cumprir. Mesmo. É feio, é imoral, é antiético dizer que vai e não ir. Então vá. Assuma os riscos, dê a cara a tapa, pise na jaca. Se não puder, justifique, dê satisfações, chore e faça com que percebam que você tentou, ao menos. Menos do que isso não basta, pois sim, as pessoas criam expectativas. Da mesma forma esperamos que:
o amor apareça ao dobrarmos a esquina.
Moça, jamais pense que porque olhamos para o seu decote queremos apenas sexo. Sexo tem mais importância em um relacionamento amoroso do que podemos supor mas, no fundo, a gente só quer saber se ao encostar a cabeça em seu peito vai sentir aquele nó no nosso desatar. Acredite. Pode não ser verdade absoluta, mas é meia verdade. Meia verdade hoje é o bastante, não?
Não, não é. E essa é a parte mais difícil.
Se não for pra se jogar por completo para que desperdiçar tempo e disposição?
O tempo é curto, a vida é uma contradição e a gente adora isso. Bem às vezes, é certo. Quando dá certo.
Leia isso imaginando que eu o digo no tom mais ridículo e no entusiasmo mais ridículo que possa existir e, sobretudo, suporte a leitura um pouco mais, pois gostaria de acrescentar algumas coisas:
Ame, irmãos e irmãs. E respeite. Muito piegas, eu sei. Eu sei. Mas é assim.
Seja honesto consigo mesmo, com os outros também. Enfrenta seus medos e toca pra frente.
A gente se decepciona muito por aqui, sabe? Então que valha a pena. Nem que seja um pouco.
E que o desgaste seja motor para mudanças maiores, melhores. Radicalize, se preciso (e é preciso, um bom número de vezes).
E doutor: estado depressivo é o caramba! Estou mais dentro do que fora, seguro a onda, eu boto fé em mim, meus defeitos me sustentam.
Era isso.
E, óbvio, quase esqueço. Não poderia pôr fim a esse texto sem eternizar: o importante é o que importa.
Agora sim, era isso.
Morcheeba, Trigger Hippie
Standing in line of fire,
For the whole,
My soul,
Step codes,
The drums,
And sing,
Love the children,
Learn to live with everything
Fleet Foxes, Mykonos
Brother, you don’t need to turn me away
I was waiting down at the ancient gate
Shortbus

A atriz Sook-Yin Lee em cena de Shortbus, de John Cameron Mitchell
No banheiro do apartamento que divide com o namorado em Nova York James tem uma filmadora nas mãos, que usa para registrar seu órgão genital enquanto vê sua urina misturar-se à água da banheira. Em outro ponto da cidade Severin cuida da manutenção de um pênis de borracha e outros instrumentos de dominação, dividida entre a paisagem semi-deserta do local onde antes estavam as torres do World Trade Center e as perguntas de seu cliente masoquista. Com a filmadora – que funciona como uma espécie de intermediário na tentativa de compreensão do mundo - agora apoiada a um tripé em cima de um móvel na sala, James pratica auto-felação e é observado pelo vizinho do prédio à frente, enquanto Severin tenta conter a curiosidade de Jesse com chicotadas e desprezo. Em um outro prédio, num outro ponto da mesma cidade, Sofia e Rob transam em diferentes posições, atrelados a difentes móveis, por diversas vezes, culminando com o fim que toda relação sexual deve (ou deveria, no caso de Sofia) ter: um orgasmo.
A catarse sexual que dá início a Shortbus pode chocar até mesmo os menos propícios a assustarem-se com cenas de sexo explícito, embora esse talvez não seja o objetivo do diretor. O sexo, estrutura central do longa de John Cameron Mitchell, aparece como um recurso explorado com o intuito de revelar os personagens e suas questões fundamentais. Em muitas ocasiões, Mitchell até tenta temperá-lo com bom humor, mas esbarra na tristeza e complexidade de seus sete papéis principais, o que transforma seu segundo trabalho no cinema numa espécie de filme para também ser pensado, não apenas visto.
“É como nos anos 60, mas com menos esperança”
Mitchell desenvolveu os conflitos dos personagens junto aos atores - encontrados por meio de uma seleção que começou com um anúncio na internet e terminou com homens e mulheres escolhidos pelo diretor e sua equipe de produção com base na compatibilidade sexual de seus perfis – e escalou, para rodar as cenas de orgia, figurantes destemidos denominados “sextras”, encorajados por uma aura de celebração que torna-se evidente apenas no fim do filme, numa festa libidinosa cômico-romântico-dramática que acaba, claro, em um orgasmo contagiante.
“Voyerismo é participação”
Se Mitchell faz de Shortbus um filme para também ser pensado, o fim da festa, portanto, talvez seja o melhor que o diretor tenha a nos proporcionar. A consciência da efemeridade das coisas acaba por unir os frequentadores do clube marginal que dá nome ao filme. E, numa adaptação da realidade dos personagens na cena final do longa ao mundo expoente pós 11/09 - presente, aliás, de forma tão sutil e sensível no roteiro -, um quase escancarado Carpe Diem aparece ao subir dos créditos. É um recado otimista – sim -, vindo de uma produção perigosa e convidativa.
Por Felipe Lima
Nina Simone, Feelings
A emblemática performance de Nina Simone para Feelings, de Morris Albert (ou Maurício Alberto), quase um manisfesto, cantada até por Didi Mocó e ícone de má (?) qualidade musical.
Poesia do Otimismo
A felicidade
de certo parecia-te algo tão inatingível
quanto a própria compreensão da vida e do amor, não?
Os sorrisos, pareciam a maquiagem perfeita
para o teu rosto
e eram
ainda que não fossem sinceros
Mas eu te digo:
somos felizes, sim
não precisamos ou devemos rir de tudo
e demonstrar apreço apenas ao que é gracioso
a própria beleza da vida não consiste apenas em gargalhadas hemorrágicas
mas também na honestidade da lágrima caída pelo motivo que for
É a balança
o que nos realiza é e será sempre
a dor e a alegria de ser o que somos e o que sentimos
Dias bons nos pertencerão
dias ruins nos incomodarão
e saberemos somente que a vida acaba com a ida para a cama
e no dia seguinte o que resta é um fio de lembrança e a intuição que guia
e permite que saibamos o caminho do dia novo que chega
Ainda que estejamos perdidos
ou não
não se desespere, nem me ache inapropriado
possivelmente seremos felizes
felizes, felizes
rindo do dia em que por um instante pensamos que tudo era tão simples
nossas verdades eram irrefutáveis
e nossas ofensas indesculpáveis.
Deixe Morrer

O corpo cede
ao que a alma propõe
sem saber que o desejo não pode
ser maior que a vontade
Então me dizem: como vai?
E respondo:
morrendo.
Porque tudo continua sem fazer sentido se você não está aqui.
Feist, 1234&Mushaboom
One, two, three, four, five, six, nine, and ten
Money can’t buy you back the love that you had then
___________
But in the meantime I’ve got it hard
Second floor living without a yard
It may be years until the day
My dreams will match up with my pay
Jill Scott, My Love
She scrubs your back, washes your clothes
Gives you everything that you ask for
But don’t you ever want more?
Cause my love
My love is deeper
Tighter
Sweeter
Higher
Flyer
Didn’t you know this,
Or didn’t you notice?
Um Sorriso e Um Bocejo

Um anti-acaso
um singelo desequilíbrio
um atordoante estímulo à paixão, três vezes
Um ímã
palavras contundentes
e a certeza de que o destino é a repetição do ciclo?
Seus lábios são desbravadores indóceis
e minhas mãos, contundentes laços
pedindo a permanência da paz que se soma e dorme e descansa
fazendo do sorriso e do bocejo, o caminho
Os rostos desarmados e as palavras incontidas
soam como o preenchimento completo dos níveis inteiros
declarações de sentido absoluto
que mentem e enganam, no entanto
ou não
“Tudo bem”.
O Gotejar da Fonte
“—— estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender.”
Clarice Lispector, em A Paixão segundo G.H.
Fleet Foxes, White Winter Hymnal
I was following the pack
All swallowed in their coats
With scarves of red tied ’round their throats
To keep their little heads
3

Talvez – e somente talvez – eu não saiba para onde esteja indo. Quem sabe eu não faça escala em algum lugar onde possa desfrutar de uma outra agonia, que não seja a de viver em meio aos seus cadarços.
Feito fumaça de cigarro umedecido, tirado do bolso sujo de qualquer uma das roupas espalhadas pelo chão, eu escorro por entre lábios e dedos.
Seria inconsequente negar o desejo. Três vezes: o meu, o seu e o dela.
Pecado seria desmerecer o amor ao cubo.
Duffy, Stepping Stone
And now you
Have the nerve
To play along
Just like
The mistro beats
In your song















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